segunda-feira, 7 de julho de 2008

Angústia

outro dia estava conversando despretensiosamente quando pensei sobre a angústia que sinto às vezes. A inexplicável que não anuncia a chegada e muito menos a partida.

Percebi a diferença.

Sempre teorizei que o envelhecimento estava inegavelmente ligado à percepção temporal. Ao tempo passar mais rápido, à festa acabar antes e à data importante não demorar mais tanto pra chegar. Sempre achei esse o ponto fundamental da idade.

Encontrei outro. A angústia.

Na adolescência quase que buscava por ela, sentimento imprescindível para compreender o envenenamento de Madame Bovary, viver o processo e a transformação de Kafka, apoiar a transgressão de Lolita, ou chorar com letras dos Smiths, estar realmente e sinceramente disposta a sofrer acreditando que ninguém nunca vai lhe amar. É o que traz a sensibilidade para experimentar a intensidade perceptiva.

Mas agora a angústia vem sem querer, sem precisar, sem pedir, sem chamar. Como o tempo.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Como pegar ônibus

Um dia desses o seguinte folheto me foi entregue na rua, com o mesmo título acima:


De preferência, tente avistar o seu ônibus assim que ele despontar na rua. O quão mais imprescindível é essa etapa quanto o tempo de espera pelo dito cujo.


Assim que percebê-lo, não importa o quão longe ele esteja, comece a agitar os braços de forma frenética, com bastante amplidão (isso é importante pois mostra a sua disposição em subir naquele ônibus específico).


Tente discernir se o motorista se dispôs a jogar o carro para pista da direita (os mais educados ligam a seta para indicar tal fato) ou se o ônibus vai passar por fora (termo comumente utilizado entre os passageiros de ônibus para designar o fato do ônibus passar pelo ponto na pista do meio e possivelmente não parar).


Caso a primeira alternativa acima seja verdadeira, continue com o abano grande dos braços até o ônibus estar parado no ponto.


Se for o caso da verdadeira ser a segunda hipótese, o processo é levemente mais complicado e envolve alguns riscos, como por exemplo, o de sofrer algum tipo de acidente automobilístico como o de ser atropelado por um carro ou moto. Primeiro, decida se você como cidadão está disposto a correr tais riscos.

Caso negativo, contente-se em esperar o próximo ônibus e torça para esse se dispor a parar no seu ponto (vale a pena também perguntar a alguém que se encontra no ponto se esse é de fato o ponto certo) ou disponha-se a fazer um caminho diferente do que havia inicialmente planejado.

Caso tenha decidido correr os riscos necessários, comece imediatamente a balançar ainda mais veementemente os braços (sempre mantendo a amplidão) e estabeleça o mais rápido possível o contato visual com o motorista do ônibus (pode também soltar algumas palavrinhas ao mesmo tempo em que mantém o contato visual, como “motorista! Eu estou aqui! Quero subir no ônibus! Pára, por favor!”), aviste quais são os obstáculos entre você e o ônibus, geralmente são as irritantes vans que não se importam e param em qualquer lugar. Nesse caso, não se acanhe e faça sinal para a van sair da frente! Vans em vão! Nesse momento, um fator importantíssimo é a percepção de que o motorista do ônibus diminuiu de velocidade. Isso é essencial pois mostra um mínimo de vontade de deixar o passageiro (você) subir no ônibus. Caso negativo, desista, é um caso perdido e volte ao parágrafo anterior.

Caso o obstáculo não saia da frente, faça sinal para o tal se manter em seu lugar e jogue-se em direção ao ônibus (não se esqueça de manter o contato visual com o motorista do ônibus durante todo o procedimento). Nesse momento, se o motorista parou, não esqueça de dar-lhe um sonoro “obrigada!” como gratificação, ao subir as escadas do ônibus. É sempre bom tratar bem os motoristas para que esses continuem parando no ponto.


No caso em que mesmo seguindo todos os passos sobre como chamar ônibus, não tenha obtido sucesso, pode xingar! Não se acanhe! Solte um generoso “Puta que pariu!” para liberar a adrenalina. Se preferir, é também aconselhado dar uns pulinhos ao mesmo tempo em que efetua o xingamento. Ajuda a liberar a raiva.”


Pois é, pelo visto eu não sou a única a pensar em técnicas de como pegar ônibus no Rio de Janeiro.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Olhos nos Olhos

Há alguns anos deixei essa música de Chico Buarque guardada em uma gavetinha do meu cérebro que raramente abro. Mais eis que outro dia em um jantar, a escutei e recordei sua beleza surpreendente.

Mas não, não se aflija, não vou cair na conversa sobre o quão lindo, sensível e compreendedor das mulheres é o Chico Buarque. Sobre isso pouco me importo. Já caí nesse chavão uma vez e agora me canso dele.

Fiquei pensando sobre uma conversa que tive há muito tempo atrás. Gustavo tinha um violão numa festa em casa de Sara e se pôs a tocar a tal música, cedendo aos meus pedidos (feito quase raro, não é sempre que Gustavo se propõe a tocar uma música escolhida por outra pessoa).

Na época cantávamos juntos em uma banda “cover” de Chico Buarque. Era divertido.

Mas enfim, na tal festa, ao terminar de cantar a música, pusemo-nos a debater sobre o significado de sua letra. Quem estaria sendo retratado pela letra da música, quem seria o verdadeiro interlocutor e o que exatamente estaria tentando dizer com frases tão fortes?

Seria uma mulher refeita de fato? Lembro que defendi essa opinião, achando que a letra retratava a vingança da mulher largada e amargurada, porque afinal de contas, “os homens sempre querem voltar e quando isso acontece a mulher já está pronta para dizer um gostoso não”. Pensava que a música era sobre esse deleite feminino e defendi ardorosamente esse ponto de vista, apoiada na frase chave da música, “Quando talvez precisar de mim/Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim”. Bobinha eu. Não percebi que esse argumento perde força com várias outras frases da música, como “Quando você me quiser rever/Já vai me encontrar refeita, pode crer”. Ninguém que está refeito de fato vai sair gritando aos quatro ventos, porque quem está recuperado de fato não precisa mais disso. Percebi que a música toda ainda tem muita paixão, muitos sentimentos, que certamente não são de uma pessoa que superou totalmente a perda de um amor. Aliás, será possível superar totalmente tal perda? Talvez uma vez que você deu parte de seu coração a alguém, essa parte nunca mais possa ser recuperada. É da outra pessoa pra sempre.

Surgiu o argumento de que talvez a pessoa que estava dizendo as palavras da música fosse uma mulher recalcada, que quer se mostrar muito bem mas que no fundo ainda está muito magoada e por essa razão quer magoar seu antigo amante. Achei esse um bom argumento, que fazia mais sentido que o primeiro e dessa vez o argumentador se reforçava com várias frases da canção. “Quero ver como suporta me ver tão feliz” poderia ser traduzida em “estou me passando por muito feliz só pra poder te machucar” e “quantos homens me amaram bem mais e melhor que você” teria como sua equivalente “não amei mais ninguém desde que você partiu, mas vou fingir o contrário”.

Afinal, uma mulher totalmente refeita foi uma mulher que teve que aprender a lidar com a morte de uma pessoa viva, uma mulher que teve que aprender a viver sem aquela pessoa da qual precisava para respirar, para ser mulher. Uma mulher totalmente refeita teve que se reinventar e redescobrir o que é viver. E quando uma mulher passou por tudo isso, ao reencontrar aquele amor perdido, será como reencontrar uma parte do seu corpo que lhe foi amputada e que agora lhe é inútil pois ela já aprendeu a viver sem. Pra uma mulher, ao reencontrar um amor perdido, talvez haja o esboço de um carinho, talvez até uma ponta de tristeza, por ter percebido que aquele amor não era tão imprescindível assim. Pra uma mulher refeita de fato, as palavras dessa canção não fazem sentido pois não parecem vir de uma mulher refeita de fato.

Foi então que Saulo lançou um argumento sobre o qual eu nunca havia sequer jamais imaginado possível e refutei logo de cara. Ele jogou “e se essas palavras tivessem sendo ditas por um homem?”. Não, não pode ser! Foi o meu primeiro impulso, a letra é tão feminina. E durante toda aquela noite continuei negando tal possibilidade.

Mas vocês sabem, toda dura verdade demora até ser admitida e tive que ficar pensando sobre esse argumento durante muito tempo até me convencer de que não há melhor explicação. É claro! Na verdade, as palavras não são o que o homem diz, mas o que o homem escuta da mulher. Veja bem, o que o homem escuta, não o que a mulher disse de fato. Mas talvez tenha sido dessa forma que as palavras ditas pela mulher chegaram ao ouvido do homem. Talvez essa tenha sido sua interpretação, ao ouvir a mulher refeita de fato. E se pensarmos bem, nada mais masculino do que “tantos homens me amaram bem mais e melhor que você”. Não consigo imaginar uma mulher refeita de fato dizendo essas palavras, simplesmente porque não há necessidade. Mas consigo imaginar o homem ouvindo essas palavras, pois esse é um assunto que vai direto em seu orgulho masculino.

Enfim, não quero entrar no clichê homem versus mulher, mas é verdade que os homens têm características em comum. É como um amigo me disse uma vez: “Há um modelo de beleza feminina que todos os homens idealizam, já a mulher não tem um padrão de beleza masculina”. Frase essa que também refutei no começo mas à qual tive que me render depois de muitas observações confirmando-a. Infelizmente. Há certos estereótipos que têm razão de ser.

Mais do que isso não sei. Só sei que achei Saulo genial por sua sacada e me dei conta de que talvez o Chico Buarque não seja um entedor da alma feminina como dizem muitos. Mas é um ótimo compositor.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

O Cuscuz

Sara e eu resolvemos cozinhar. Ficamos entusiasmadíssimas com a idéia, afinal é sempre uma delícia cozinhar. Quanta alegria, pensar no que cozinhar, separar cuidadosamente os ingredientes e prepará-los engenhosamente! É um exercício maravilhoso de paciência, método e bom senso (convenhamos, cozinhar também é ter bom senso. Ao preparar algo, não podemos fiarmo-nos estritamente na receita que temos em mãos. Precisamos ter o pensamento crítico para poder contestar certos aspectos da receita e modificá-la de acordo com o gosto de quem prepara).

Enfim, reunião, cozinha, amigos, música, bebida, reunião, na cozinha, conversa, música...esses ciclos assim animados de uma noite de jantar na casa de amigos. Nada melhor, não é mesmo? Pois é, eu também acho, não há nada melhor do que encontrar os amigos para uma noite descontraída. Ainda mais agora que estou ficando velha, assim mais sentimental, cada minuto com os amigos é precioso. Velhos amigos, que estão ficando velhos junto comigo. Logo estaremos relembrando pela décima quinta vez aquele dia na praia, na casa da Marisa, em casa de Vandinho, com um suspiro nostálgico. Não que eu seja nostálgica, pelo contrário, adoro o presente! E ainda mais tentar projetar o futuro! Ai, mas já me perco novamente em devaneios. Eu estava falando do jantar...

O jantar, Sara e eu cozinhando, Luiz ajudando e um emaranhado de sensações nos rodeando, tamanha a expectativa. Em certo momento, confesso que me deixei tomar pelo medo da falha e me questionei sobre as nossas capacidades. Lembrei de todas as tentativas frustradas que Sara e eu já havíamos experimentado ao tentar preparar qualquer comida um pouco mais sofisticada. Tomada pela confusão de pensamentos me perguntava “como fomos parar aqui cozinhando para 17 pessoas, um prato que nunca tentamos antes? Somos loucas?”. Bom, essa última pergunta nem precisei responder, a resposta é fácil, que me perdoe Sara.

Ainda tomada pelo medo, pensava na torta de limão, empreendimento meu, de Sara, Maísa e Olga. Parece que no colégio de Sara havia a tal menina das tortas de limão, que tinha aparentemente um enorme talento em preparar as tais. Com a receita em mãos, Sara, Maísa, Olga e eu nos enveredamos pelos caminhos obscuros da feitura da torta. Poupo-lhes os detalhes, mas a verdade é que depois desse dia nunca mais sequer consegui pensar em comer a tal. Uma pena, é tão bom. Mas tenho a leve impressão de que fiquei traumatizada.

A lembrança do ocorrido da torta não me ajudou a sair daquele bloqueio e procurei desesperadamente no cantinho do meu cérebro a lembrança de alguma tentativa bem sucedida da realização de uma receita.

Lembrei do fondue de queijo. Antes de mais nada, digo que o fondue ficou uma delícia e que naquela noite todos os presentes apreciaram o feito, talvez como uma forma de consolar as cozinheiras, Sara e eu, pela aparência desgraçada do pobre fondue.

Pois é, a lembrança do fondue também não ajudou, pelo contrário, aumentou o medo e me deixou num estado de pânico.

Nesse instante, como mulher ponderada que sou (há), resolvi que pensar nos momentos em que Sara e eu cozinhamos juntas não estava ajudando, senti falta dos conselhos culinários de Maísa, liguei para minha mãe mais uma vez para confirmar a receita e resolvi partir para outra tática.

A que escolhi foi a de me preparar para a possível tentativa frustrada, ressaltando todo o trabalho que havíamos tido para o preparo do tal cuscuz. Foram muitas preparações, muito trabalho. E me acalmei. E continuamos na nossa tarefa.

Logo mais chegou Maísa com Leopoldo, abrimos um vinho, o cuscuz no fogo, chegou Marisa com Emílio, chegou Talita, chegou Lia. Luiz e Emílio começaram a fazer um som bom, Leopoldo sem a bateria, só ouvindo, a gente tomando mais vinho, tentando cantar, curtindo o som bom.

O cuscuz? Queimou. Não, brincadeira! Ficou ótimo, mas ficou pra trás porque todos alí, felizes cantando, esquecidos do jantar foi muito melhor.

Senti falta de Olga, Gustavo (que tinha prometido comparecer, mas não foi) e Vandinho (que no dia seguinte reclamou por não ter sido convidado, quando nos encontramos em casa de Maísa e Sara).

Jantar com os amigos é tão bom.

sábado, 7 de junho de 2008

Frases que ficam

Têm umas frases que me vêm à cabeça recorrentemente. Às vezes elas desaparecem por um tempo um pouco maior que o de costume, mas sempre me voltam hora ou outra. Chamo essas de “frases que ficam”. Tenho uma coleção delas na minha cabeça, coleção que não cessa de crescer, visto que interajo com amigos e estranhos que me dizem frases interessantes todos os dias. Mas curiosamente apenas algumas me voltam à cabeça, de uma forma assim meio aleatória, que não posso prever. A memória é coisa meio aleatória mesmo, não é?

Outro dia quando pensava sobre essas “frases que ficam”, percebi que até posso classificá-las por gênero, como se classificam as peças de uma coleção.

Têm, por exemplo, as que eu nunca entendi o propósito: “Nossa, você é feia mesmo”. Essa eu escutei numa festa, de um menino do meu colégio com o qual eu nunca havia falado. Coisa de adolescente, totalmente gratuita, mas que eu nunca entendi. Principalmente porque ele era na época a pessoa mais feia que eu já havia conhecido. Fiquei anos pensando nesse gesto de agressividade gratuita e nunca consegui entender direito. Não entendo a agressividade. Mas acho que esse ocorrido acabou trazendo algo bom, ou pelo menos uma compreensão, afinal de contas foi graças a essa frase que entendi totalmente uma outra, de um cara famoso, “I'm so ugly that's ok 'cause so are you , broke our mirrors”. Naquela hora, eu entendi o sentido pleno dessa frase. Em outra ocasião fui achar a beleza e a representatividade da frase do Leonard Cohen “We are ugly but we have the music” (mas na verdade quando a encontrei já havia há tempos resolvido o meu problema com a beleza), que por si só é quase um hino.

Aliás, permitam-me o parêntese, Leonard Cohen é Foda! Pra Caralho (com letra maiúscula, que me perdoem os púdicos, mas não há adjetivo mais adequado para descrever o compositor)! Ele me lembra (fisicamente falando) Joãozinho, o meu maior amor musical! Mas isso é história pra outra hora pois essa rende. Poderia passar dias descrevendo todas as descobertas de vida que o violão de Joãozinho me trouxe, foram anos de entrega!

Me fez até suspirar agora, mas na verdade me trouxe à lembranca uma outra frase que ficou da época da minha descoberta tardia da bossa nova. Mostrava ao meu namorado uma das melodias mais lindas que eu já havia escutado, uma música de Tom Jobim, Dindi. E ele, num tom zombador de pessoa incrédula de beleza, às gargalhadas olha em minha direção e diz: “dim-dim? Ele gosta de dim-dim? Eu também! Hahahaha!”. Pobre criatura, não entendeu.

Existem aquelas frases despretensiosas, que por serem engraçadas ou às vezes até por razão nenhuma, ficam na cabeça. Sim, porque nem sempre as frases precisam de motivo para ficar, elas simplesmente ficam. Foi assim com a “de graça até ônibus errado”, dita assim num tom gozador, como uma piadinha esperta, mas que reverbera no meu cérebro toda vez que quero fazer alusão à gratuidade de algo. Me lembro de quem me disse e até do lugar e situação em que ela me foi dita pela primeira vez. Na verdade é assim com quase todas as frases que ficam. Me lembro detalhadamente do contexto em que ouvi cada uma delas. Então toda vez que repito uma frase que fica, me remeto àquela cena da vida que a minha memória selecionou para ser guardada. Como se a vida fosse um livro e as frases que ficam, as referências.

Por falar em livro, aproveito para entrar na categoria das frases de livros que ficam. A minha predileta, que eu sempre cito e que inevitavelmente sempre me vem mesmo sem querer (pois detesto ser repetitiva, e não precisa nem ser pros outros, pra mim mesma já acho chato, gosto de mudar o máximo possível sempre que posso. Mas é que realmente essa frase que ficou, não consigo não proclamá-la toda vez que tenho a oportunidade) é do Nabokov, lindo, que em sua autobiografia, ao falar sobre o reencontro depois de dez anos com uma de suas governantas e da intimidade que os dois ainda encontraram, diz que “Os verdadeiros amigos são aqueles que se reencontram depois de dez anos sem se ver e tudo se passa como se tivessem se visto no dia anterior”. Acho essa frase o máximo. Traduz a essência da intimidade. Por isso nunca consigo me conter ao pensar nessa referência.

Outra frase do mesmo escritor, a qual acho que faz o maior sentido e que sempre me vem à cabeça é: “Não entendo as pessoas que sentam num bar e não tomam o tempo de observar tudo e todos ao seu redor”. Essa se auto-explica.

Têm as frases trágicas, fortes demais para serem esquecidas, como “acho que nunca vou gostar de ninguém”, a qual inicialmente não compreendi e que ressoou em minha mente como um grande ponto de interrogação, mas que mais tarde fez todo o sentido. Representa a nossa eterna busca pelo amor e seus percalços.

Mas confesso que de todas as frases que guardo comigo, a mais importante, a que nunca esquecerei e que vai ecoar no meu coração pro resto da vida, é “Quer casar comigo?”.

sábado, 24 de maio de 2008

O Negócio do Ônibus

Outro dia estava andando por Copacabana, assim meio pensativa, ainda escutando as palavras da dentista, no consultório da qual eu me encontrava havia pouco, sobre a necessidade de fazer em minzinha um tratamento de canal. Andava ainda um pouco zonza, não sei bem se por causa da notícia ou por causa do preço que vinha com a notícia, me perguntando que tipo de droga eu teria que tomar no dia do tratamento e como eu faria para pagá-lo.

Enquanto ainda pensava no meu temido futuro dentário ia me dirigindo ao ponto de ônibus, daquela forma automática, sem conseguir me decidir qual o ônibus que gostaria de pegar para me levar até em casa. Avistei então o 464-Leblon se aproximando, decidi que esse era o escolhido pois estaria vazio com certeza, com lugares vagos para eu poder escolher o melhor, nele me sentar e começar o caminho até o meu destino final, caminho aliás que sempre me proporciona um prazer infindo quando vou por ele escutando as músicas que selecionei para entrar no meu tocador de mp3.

À minha frente, também se dirigindo apressadamente em direção ao ônibus, um homem alto de blusa amarela. Entrei no 464-Leblon, escolhi meu lugar cuidadosamente (gosto do banco alto traseiro pois tenho uma visão panorâmica de todo o ônibus e posso ficar observando os passageiros, o cobrador e suas movimentações) e liguei a música. Essa é a parte mais importante de toda viagem de ônibus: o lugar onde sentar e a música para tocar. Quando terminei esse procedimento imprescindível para o bom andamento da minha pequena viagem de ônibus, me apliquei na segunda parte de toda viagem: olhar em volta e observar.

Foi então que percebi que o homem de blusa amarela que havia se apressado na minha frente em direção ao ônibus, se encontrava sentado conversando com uma senhora (deduzi que era sua mãe ou alguém que ele conhecia muito bem) e lembrei que não havia observado a presença da senhora se dirigindo apressadamente em direção ao ônibus. E então, obviamente, me perguntei: será que eles fizeram o negócio do ônibus?

Ao me fazer essa pergunta, e ao perceber o quão improvável essa possibilidade era (vocês entenderão porque quando explicar-vos o que é o negócio do ônibus), notei o quão entranhado em mim era o tal negõcio, do qual fiz muito uso lá na minha adolescência e comecei a pensar sobre a disposição que os adolescentes têm. E aqui devo me conter pois estou já quase concluindo antes mesmo de terminar a exposição. Eu sei, sou afobada, aliás afobadíssima pois também sou exagerada! (notaram o ponto de exclamação ao final da frase? Também é um sinal do meu exagero. Se não me controlar, pontuaria todas as frases com uma exclamação!).

Mas enfim, quando eu tinha por volta dos quatorze anos, não havia celular ainda, pelo menos não esse uso extenso de hoje em dia. E nem eu nem minhas amigas tínhamos carro. Então quando queríamos sair juntas pra algum lugar, cada uma partindo de sua respectiva casa (sim, porque adolescente nenhum chega sozinho a um lugar, os adolescentes por definição andam em bandos e chegam nos lugares em bando e por mais que eu acreditasse não ser uma adolescente comum – quanta presunção! - eu obviamente repetia o comportamento padrão dos outros da minha idade. O que até me faz pensar se não somos mais animais nessa idade do que em qualquer outra, porque ao mesmo tempo em que queremos nos diferenciar, temos quase todos o mesmo tipo de comportamento. Mas enfim, já estou me desviando do assunto novamente.). Então, sem celular e de ônibus, tínhamos uma complicada rede de comunicação.

Sara morava em Ipanema, Hortênsia no Leblon, Maísa no Jardim Botânico e Olga no Humaitá. Nos encontrávamos com os outros de nossa tribo todos os domingos no Arpoador. A técnica que desenvolvemos foi a seguinte: Olga ligava para Maísa e avisáva-lhe que estaria a sair de casa naquele exato momento. Maísa então esperava cinco minutos, ligava para Hortênsia e dava-lhe o mesmo aviso. Hortênsia por sua vêz esperava o tempo necessário até o momento de sua saída e repetia para Sara o que Olga e Maísa já haviam feito, cada uma no seu turno. Essa era a primeira etapa do negõcio do ônibus.

A segunda etapa consistia em se fazer notar pela amiga do lado de fora, para que esta pudesse entrar no mesmo ônibus. Pois é, porque além de sem carro, os adolescentes são também sem dinheiro por “default” e por essa razão era impensável gastar o dinheiro de mais de uma passagem, às vezes até o de uma única passagem já era demais, perdi a conta das vezes que já conversei com o trocador para poder descer por trás do ônibus sem pagar a passagem.

Devo dizer que essa segunda etapa era a essencial e teve de ser aprimorada depois de algumas tentativas frustradas.

Na primeira versão da segunda etapa a amiga que se encontrava dentro do ônibus se punha em posição de se fazer notar pela amiga de fora do ônibus, se debruçando pela janela e balançando veementemente os braços. Se isso não fosse o suficiente, um leve grito chamativo era usado como segundo recurso. Mas todas concordamos que essa talvez não fosse a forma mais eficiente e resolvemos aprimorar a segunda etapa do negócio do ônibus para uma técnica mais elaborada.

A segunda versão da segunda etapa era bem mais simples, sem a necessidade de pendurar o torso para fora do ônibus com o abano frenético dos braços e o gritinho estridente pelo nome da amiga. Não, a segunda versão da segunda etapa era mais contida, mais madura, que nos fazia até quase sentirmos-nos mulheres ponderadas (todos gostam de se enganar às vezes, porque afinal de contas quem conhece Sara, Hortênsia, Maísa e Olga sabe que a última de suas qualidades – e acreditem, são mulheres de muitas – é a de mulher ponderada).

Ao chegar perto do ponto em que a próxima amiga estaria, uma delas calmamente se levantava, gentilmente fazia sinal para o ônibus parar e elegantemente se mantinha à frente do ônibus para a amiga de fora poder identificá-la e subir no mesmo.

Aplicamos esse procedimento inúmeras vezes, até uma das amigas começar a dirigir ou passarmos a ter mais dinheiro ou perdermos mesmo a disposição para essa técnica tão complexa.

Afinal de contas, uma das coisas fascinantes dos adolescentes é a sua disposição para programas furados, show ruim, o negócio do ônibus, a paixão avassaladora, o sofrer...o sofrer descontroladamente por amor!

Ao fim da minha viagem de ônibus já havia me convencido que o homem alto de blusa amarela e a senhora que parecia sua mãe, haviam se encontrado no ônibus por acaso. Desci um pouco antes do meu ponto, escutando “O cérebro eletrônico” do Gil.

domingo, 18 de maio de 2008

O Teatro Casa Grande e a Noviça Rebelde

Deixe-me começar esses pensamentos esclarecendo o porque de sua existência.

Sou carioca, ou bahiana ou francesa segundo alguns. Minha família é toda da Bahia, Nasci em Paris e morei no Rio a minha vida toda, ou pelo menos até os meus 25 anos, quando resolvi me entranhar pelo mundo para fazer meus estudos em Física de Partículas Elementares, tentando obter um Doutorado na área.

Mas aqui não quero falar de Física, isso já faz muita parte dos meus pensamentos e já me traz angústias o sufienciente assim como está. Aqui não quero ter essa preocupação, quero falar daqueles pensamentos que me vêm assim, sem pensar, assim sem querer, questões que não consigo responder, observações sobre algo cuja lógica me escapa e que em geral engloba as pessoas, seus comportamentos e suas reações. Às vezes uma pessoa, outras um pequeno grupo, mas na maioria das vezes “a massa”. Aquela mesma, que é comandada por aquele pequeno grupo.

Sempre me surpreendi com a falta de opinião própria das pessoas, e aqui faço questão de me incluir “na massa”, já que às vezes sem perceber acabo me deixando levar pelo comportamento coletivo e me vejo repetindo idéias, opiniões e até gestos feitos por outros. Mas me reconforto achando que isso é inevitável. E me iludo achando que penso por mim mesma. Está aí a razão de existência desses pensamentos. O meu pensamento próprio - a redundância aqui é proposital, caso haja algum literato entre os que lêem esse texto - sobre as coisas que vejo ao meu redor.

Quero deixar claro desde já que não vou falar de nenhuma questão grandiosa ou gloriosa, mas apenas de fatos que me intrigam.

E vou começar com a reabertura do Teatro Casa Grande aqui no Leblon e a peça que escolheram para tal evento, A Noviça Rebelde.


Vamos começar fazendo uma análise da situação. O que representa a Noviça Rebelde e o que representa a reabertura do Teatro Casa Grande. Só de escrever os dois nomes juntos já me espanto por achá-los já tão discrepantes só assim. Mas não quero influenciar-vos com minha opinião por enquanto, portanto farei um esforço para guardar esse pensamento por agora, mas só o tempo de fazer essa análise preliminar da situação.

Pois bem, vamos lá, a Noviça Rebelde. Quem no Brasil não conhece a Noviça Rebelde, ou melhor, quem de uma certa idade não conhece a Noviça Rebelde? Pois é, já mesmo nos meus vinte e nove anos tenho complexo de velha. Aliás pra falar a verdade, tenho complexo de velha desde os quinze...acho que na verdade nunca me inseri “na massa” da minha idade. Mas esse é um pensamento pra um outro dia. Hoje estou mais interessada em discutir sobre a Noviça Rebelde e indagar-vos a pensar sobre o assunto. Pequeno, sim! Mas que já diz muito sobre a mentalidade “da massa” artística do Rio de Janeiro!

Então (vou já advertendo-lhes que uso muito a palavra “então” para retomar uma idéia quase perdida. Se vocês forem pacientes o suficiente para continuar lendo os meus pensamentos, perceberão que quase me perco muito facilmente e adoro parênteses pensativos), como ia dizendo a Noviça Rebelde é um musical que vem dos Estados Unidos e que fez muito sucesso por aqui também. Me lembro claramente de assistir à versão cinematográfica da obra várias vezes enquanto criança, quando a Rede Globo passava-a repetidamente na Sessão da Tarde, meu programa pós-escola predileto, dos 5 aos 8 (?) anos de idade.

É uma história bonitinha, com umas músicas lindinhas que ficaram para sempre na memória de quem gosta do filme. E creio eu que seja referência até hoje. Nem me lembro direito da história, mas lembro muito bem da Julie Andrews e de sua imagem como Noviça Rebelde. Então é isso, Noviça Rebelde = Estados Unidos + hábitos americanos + referências americanas + inglês + muitos anos atrás. E aqui novamente tenho que abrir outro parêntese, já que devo avisá-los também de antemão que fui treinada para ter um pensamento matemático e que equaciono os meus pensamentos o máximo que posso. As equações simplificam as idéias e eu sou por “default” uma pessoa simples.

Espero então que tenham guardado na mente a equação da Noviça Rebelde pois agora explanarei meus pensamentos sobre o Teatro Casa Grande, que na verdade não são muitos, não vou tentar enganar niguém, não tenho tanta informação assim sobre nada na verdade. Sou totalmente ignorante, mas penso, essa é a minha vantagem.

Então, o Teatro Casa Grande. Lembro-me que frequentava muito esse teatro com meus pais, meu irmão, minha tia, minha prima. Lembro até da bruxa de uma das peças que vimos por lá que me fez chorar de medo. Assustadora aquela bruxa! Mas sobre o teatro em si, andei lendo que foi palco de grandes peças, inclusive musicais com música de Chico Buarque e cantada pelo grupo MPB4, além de ser ponto de encontro da juventude que gritava contra a ditadura.

O Teatro Casa Grande, que me lembro muito bem, sofreu um incêndio em 1997, depois de passar anos completamente abandonado (ou pelo menos aparentemente completamente abandonado), que o destruiu. Eu me lembro que até comentei na época com uma de minhas amigas que esse incêndio havia provavelmente sido criminal, para poderem construir o tal shopping que agora o abrigará e que essa técnica já havia sido usada anteriormente no Leblon, para extinguir a favela onde depois se construiu a Selva de Pedras.

Enfim, Teatro Casa Grande = clássico Rio de Janeiro + cultura brasileira + português + voz da juventude carioca.

Então? Você consegue ver onde quero chegar?

O que a Noviça Rebelde tem a ver com o Teatro Casa Grande, minha gente? Alguém pode me explicar por favor?

E alguém viu a foto de divulgação do musical? A atriz principal se fantasiou de Julie Andrews e o ator principal do par da Julie Andrews! Nada contra os atores! Mas não consigo entender. Como assim? Não estamos no Brasil? Qual a relação entre o Brasileiro e a Noviça Rebelde? Se pelo menos tivessem colocado um negão e uma negona pra fazer o papel principal, eu teria me sentido mais próxima do musical! Gente, com tanta peça brasileira boa! Por que um musical super-mega-ultra americano? Não consigo entender, não consigo entender, não consigo entender!!!!!!

Eu com certeza não vou assistir a esse musical. Vou ficar me perguntando qual a razão de produzir tal peça quando existem tantas outras muito mais brasileiras e muito mais próximas das pessoas que vivem aqui.

É claro que tem toda aquela discussão de que arte é arte incondicionalmente. Eu até concordo, se duvidar até já li mais livros de autores estrangeiros do que brasileiros. Mas é que realmente eu gostaria de ver mais arte brasileira. Boa, é claro.

É por isso que ao invés de ir assistir à Noviça Rebelde, vou à galeria do Ernesto Neto.

É isso aí, desaguei meus pensamentos aqui. Eu que achava que fosse me acalmar ao fazer tal, me enchi de outros pensamentos sobre os quais também me enlouqueço para falar!

São muitas questões.